top of page
Buscar

Mas afinal o que é superdotação?

Por que nossos filhos são inquietos, sonham acordados, se desinteressam pela escola? Por que muitos deles tem seletividade alimentar, arrancam as etiquetas das roupas e se incomodam com os barulhos da sala de aula? Por que alguns manifestam uma inquietação corporal, mordem a ponta do lápis e as golas das camisetas? Por que mesmo tendo habilidades de calculo, vocabularios acima da média eles podem sofrer com coisas simples como guardar o material na mochila, copiar a lição do quadro, escrever à mão e amarrar os cadarços?


Como mãe de um menino identificado somente aos onze anos todas essas dúvidas me sondavam e como vocês devem imaginar esses comportamentos eram categorizados muito facilmente em algum transtorno do neurodesenvolvimento, como o autismo, tdah, disfunção sensorial ou outros. Na época a informação era rasa, difusa e com pouquissimo rigor científico, especialmente no Brasil. Haviam vários elefantes na sala que não explicavam as questões de comportamentos atípicos passíveis de diagnósticos psicopatológicos. Acredito que ainda hoje o desconhecimento é grande.


Sabemos que existem uma incidência de quadros combinados de dupla excepcionalidade (em breve pretendo dedicar um post somente sobre o tema) na superdotação, que é quando a pessoa, além de um alto potencial cognitivo (por hora vou me reservar à questão de qi), também possui um transtorno de neurodesenvolvimento, de aprendizagem, de humor e, menos falado, de personalidade.


Mas mesmo quando há essa combinação, ainda resta saber o que define a superdotação? O que é "da superdotação". Quem é você PESSOA superdotada? Hoje temos algumas clareiras nessa floresta de dúvidas, mas nenhuma aberta o suficiente para que possamos dizer que responde tudo sobre a superdotação.


No entanto, posso afirmar cinco anos após estudar, me especializar e conviver com adultos, crianças e muitos profissionais, ter minha própria identificação que quando falamos de superdotação, estamos falando de superdotaçÕES, estamos falando de uma variedade de manifestações dentro de um continuum/espectro de uma mesma base cognitiva e neurofuncionamento. E por acreditar que boa parte das diferenças individuais podem ser explicadas com base no cérebro me especializei na neuropsicopedagogia.


Complexo.


À partir das diversas tentativas e modelos teóricos para definir a superdotação, tomei a liberdade de classificar essas visões em alguns grupos, tendo como base diferentes perspectivas:


À partir do QI

A tradicional visão psicométrica é quase arbitrária em definir superdotação como aquele grupo de pessoas com inteligência medida por testes cogntivos (habilidadas cognitivas) em que seu desempenho total configura nos famosos dois desvios padrão da média. Isso significa que estatisticamente algumas habilidades cognitivas configuram significativamente acima do esperado para a idade cronológica, geralmente estamos falando de um QI 130. Se a média esperada para a população geral é de 100, um desvio padrão é 15 e dois 30. É uma medida objetiva e estatística, que coloca essa pessoa numa curva de distrbuição e um percentil, geralmente o percentil 95.


Há diversos modelos cognitivos que se sobrepôem numa avaliação de inteligência, mas em geral eles afunilam em dois grandes grupos: inteligência fluida e cristalizada. A inteligência fluida está mais relacionada com habilidades de raciocínio logico, criatividade e está mais associada com questões inatas (genética) já a inteligência cristalizada é mais dependente de estimulos ambientais e acesso à educação (apesar de estar relacionada com a inteligência fluida também). Isso pode nos oferecer insights importantes sobre o impacto das diferenças socioeconômicas e culturais na identificação de grupos históricamente discriminados socialmente.


  • Pontos positivos: medida objetiva faz um recorte exato e define um grupo restrito da população, essas medidas objetivas facilitam muito a pesquisa sobre características qualitativamente distintas nesse grupo, como personalidade, desenvolvimento neurocognitivo e até questões mais fisiológicas do cérebro. Além disso os indices de desempenho em tarefas dos testes de inteligência contribuem muito para pensarmos diferenciação com base em cognição, por exemplo, quais tipos de tarefas acadêmicas se relacionam mais com as medidas dos testes tanto para estimular áreas de força como intervir em áreas de desafio, o mesmo se aplica para intervenções psicológicas que venham a ser necessárias.


  • Pontos negativos: A abordagem de ponto de corte no Qi geralmente pode deixar de fora potenciais excepcionais que se destacam além das habilidades cognitivas, ou mesmo a maioria das pessoas com dupla excepcionalidade que nem sempre tem desempenho igual em todas as habilidades cognitivas, tendo portanto uma discrepância importante entre áreas de desenvolvimento. Além de desconsiderar outras habilidades relacionadas à expressão de talento e produção criativa. Além disso o uso de testes é uma forma relativamente cara para avaliação em larga escala.


Na minha prática adoto uma visão expandida da superdotação à partir das medidas de QI, considero sempre o desempenho nos índices individuais e outras medidas de desempenho, olho para o teste como um termômetro não exatamente justo, mas uma medida daquele momento único da pessoa, que reflete sim muito do seu mapa cognitivo mas não tudo. Em geral medidas de UM DESVIO padrão acima da média já são elegíveis à serviços de diferenciação, atendimento educacional especializado e adaptações no ambiente escolar, além de orientação parental. Pois os comportamentos superdotados (um conjunto de características atípicas) já costumam aparecer e necessitam de suporte, intervenção e adaptação.


À partir do desempenho

É importante compreendermos que mesmo crianças/adolescentes e adultos que manifestam um QI acima ou muito acima da média nos testes de inteligência, nem sempre vão expressar esse potencial como DESEMPENHO e REALIZAÇÃO. Apesar da ciência cognitiva oferecer uma série de modelos para funções, processos e construtos psicológicos serem avaliados de forma quantitativa e qualitativa, seria muita ingenuidade acreditarmos que a capacidade de inteligência total está perto de ser expressa num escore de teste cognitivo.


Sabemos algumas coisas sobre memória, habilidade verbal, tipos de raciocínio e velocidade de resposta entre estimulo, processamento e entrega de resposta comportamental, mas ainda estamos longe de conhecer todas essas habilidades e o principal, como elas se relacionam entre sí. Portanto, as medidas de desempenho acadêmico, criativo, psicomotor ou outras expressões de talento também são importantes para olharmos para a superdotação em domínios isolados e combinados. Não raro, compositores, músicos e diversos artistas ou atletas que contribuem com um tipo de obra significativo para o contexto social não se enquadram em medidas de QI muito acima da média.


Esse potencial pode ser identificado na infância e em alguns casos pode estar presente em pessoas com elevado QI também. As medidas de desempenho, expressão e talento VISÍVEL, são comportamentos observáveis que indicam muito além de um rótulo "superdotado" uma necessidade de atendimento e estímulo para o desenvolvimento de potencial. Essa visão é expandida e nos permite pensar num CONTINUUM de habilidades humanas que podem ser relevantes para a sociedade, mas especialmente para a singularidade da pessoa. Não está intrincado na curva de distribuição de QI, mas também pode se relacionar com ela, quando pensamos em expansão de habilidades cognitivas e talentos "tangíveis".


  • Pontos positivos: Uma abordagem de superdotação focada em talento e expressão de comportamentos produtivo/criativos é uma visão abrangente e que fornece a possibilidade de irmos além dos grupos históricamente favorecidos na sociedade. Nos permite ter uma visão baseada em forças e desafios e desenhar a inclusão em sala de aula com uma perspectiva mais positiva mesmo naqueles alunos que possuem também alguma outra condição do neurodesenvolvimento ou alguma vulnerabilidade socioeconômica que podem impactar a inteligência cristalizada. Aqui o centro do olhar se foca naquilo que é valioso enquanto produção/processo criativo/produtivo para a sociedade.


  • Pontos negativos: Os críticos dessa abordagem de superdotação enfatizam que muitas vezes a natureza (capacidades inatas) e comportamentos qualitativamente distintos da norma são desconsiderados pois a singulidade, o "self" e questões subjetivas (geralmente de ordem socioemocional) são desconsideradas no atendimento e identificação. Há também uma forte discussão sobre a ênfase que alguns modelos educacionais podem colocar na ideia de superdotação como sinônimo de talento, por vezes desconsiderando as idiossincrasias da complexidade de comportamento de superdotados intelectuais e seu desenvolvimento atípico. O foco excessivo portanto no talento também pode contribuir para um perfeccionismo desajustado e questões de saúde mental como ansiedade de desempenho, autoconceito pessoal e acadêmico além de outras questões que envolvem uma vulnerabilidade da pessoa superdotada no seu modo de ser no mundo, o que podemos chamar de "neuroatípico".


Na minha prática a maioria dos superdotados que atendo são do tipo intelectual e criativo, geralmente identificados por testes de qi (mas nem sempre com um qi 130+), na maioria das vezes eles apresentam demandas acadêmicas, sociais e emocionais além do desenvolvimento de talento. Acredito que uma visão integradora e integrativa, centrada na pessoa seja importante, que una as diversas necessidades do todo da pessoa superdotada/2e.


À partir da experiência de primeira pessoa

Nos anos 90 nos estados unidos houve uma discussão à respeito da ideologia dominante no campo da superdotação que então era focada nos modelos de desenvolvimento de talento. As críticas que surgiram predominantemente pelas famílias e professores de superdotados culminaram numm conceito fenomenológico com importante influência da psicologia humanista da superdotação, focada predominantemente na experiência em primeira pessoa, auto-relatos, relatos anedóticos e considerando a condição da superdotação como um desenvolvimento assíncrono, focando na relação entre a idade mental (inteligência) e desenvolvimento socioemocional.


Esse conceito de desenvolvimento assncrono proposto pelo Columbus group ainda defende que ser uma pessoa superdotada é necessariamente ter uma intensidade emocional e vulnerabilidades. O foco desta visão humanista é enfatizar os aspectos subjetivos e o "eu superdotado" ao invés da realização, apesar da pesquisa nesse aspecto não fornececermuitas evidências de que pessoas com um qi maior são necessariamente qualitativamente diferentes da norma, alguns pesquisadores pós humanistas e da psicologia cognitiva tem trabalhado para investigar mais a natureza da experiência superdotada, incluindo estudos longitudinais com base no cérebro. Porém é importante que tenhamos cautela em generalizações quando olhamos para essa perspectiva.


A partir deste olhar temos alguns autores que são trazidos ao contexto da superdotação para dar significado aos comportamentos atípicos de crianças/adolescentes e adultos superdotados. Os mais famosos são Kazimierz Dabrowski e Letta Hollingworth. O trabalho destes autores no início do século e suas abordagens centradas no potencial de desenvolvimento oferece um olhar alternativo ao modelo biomédico de entendimento da superdotação e transtornos mentais.;


  • Pontos positivos: As teorias adotadas como base na abordagem humanista da superdotação oferecem em um primeiro momento um conforto e uma aceitação à comportamentos que possam parecer estranhos Socialmente. Alguns autores inclusivem defendem que a ideia das intensidades (motora, emocional, imaginativa, sensorial e intelectual) defendidas na teoria da desintegração positiva como sobreexcitabilidades seriam uma gênese do modelo da neurodiversidade e uma explicação profunda do modo de ser dos superdotados e 2e. De fato as explicações qualitativas das sobre-excitabilidades, a ideia de um descompasso de neurodesenvolvimento e uma série de outras afirmações parecem realmente fazer sentido quando falamos com pessoas superdotadas e observamos as crianças precoces, criativas e intesas.


  • Pontos negativos: Infelizmente como todas as teorias fundamentadas na fenomenologia e com um foco excessivo em autorelato há uma dificuldade significativa de validar os construtos defendidos como as sobre-excitabilidades para explicar a intensidade, também não raro, muitos superdotados e algumas famílias que tem claras caracteristicas psicopatológicas se utilizam da narrativa das sobre-excitabilidades é desenvolvimento assíncrono para não buscar intervenção psicológica que os auxilie no seu desenvolvimento e bem estar. Infelizmente essa abordagem subjetiva tem sido subterfúgio para alguns discursos capacitistas sobre a intersecção transtorno x superdotação.


Na minha prática e vivência como pessoa superdotada e autista com diagnóstico tardio posso dizer que a intensidade da experiência subjetiva pode ser explicada com qualidade através da ideia de um desenvolvimento assíncrono e das sobre-excitabilidades, especialmente no meu caso em relação à experiência emocional e sensorial. E seria muito ingênuo da minha parte não acreditar que num futuro breve haverá avanços na pesquisa sobre a importância da fenomenologia e do relato em primeira pessoa sobre "ser" superdotado, e sobre a experiência qualitativamente distinta. Porém, infelizmente hoje os modelos de identificação, intervenção e atendimento para superdotados baseados exclusivamente nessas teorias (desenvolvimento assíncrono e sobre-excitabilidades) ainda não se sustentam empiricamente e fornecem evidências baixas. É obvio que considero como legítimo quando uma família me diz: meu filho tem sobre-excitabilidades. Porém, procuro ser clara e justa em explicar que dentro das abordagens com maior evidência científica ainda há um grande caminho para a abordagem humanista na superdotação (educação e psicologia).


Se você chegou ao final desse texto confuso sobre a pergunta inicial, saiba que você não é o único. Seguimos num grande movimento em busca de integrar essas diferentes visões sempre com um norte para a ciência e as evidências disponíveis e buscando os caminhos possíveis na nossa prática, validando e compreendendo com o foco num desenvolvimento saudável nos diversos ambientes que o superdotado está.


Jenifer Mendes

Neurospsicopedagoda especialista em AHSD e 2E

licencianda em educação especial

Orientação parental e orientação escolar (inclusão e pei)

@tudosobresuperdotacao


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page