O Modelo Integrativo de Desenvolvimento de Talentos (IMTD) e o entendimento da superdotação enquanto um desenvolvimento ao longo da vida
- Ciência AHSD
- 30 de out. de 2024
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Uma das principais contradições dentro do campo de estudos da superdotação (educação e psicologia) é a própria definição do fenômeno, afinal o que é superdotação? Se passaram mais de cem anos desde os primeiros estudos sobre a natureza da inteligência e desde então não há um consenso na comunidade científica que nos auxilie a melhor identificar a superdotação.
A compreensão do que é ser superdotado passa por outras definições amplamente complexas como talento, expertise, domínio e a mais indefinível de todas: a criatividade. Compreender a superdotação também passa por questões filosóficas da educação e psicologia, afinal qual a finalidade da educação especial para quem aprende mais rápido?
Diante da indefinição da superdotação (ou de um consenso muito bem delineado) profissionais da educação, psicologia e desenvolvimento humano lidam com comportamentos que costumam aparecer nesta população desde a infância e é a partir desses comportamentos ou de comportamentos relacionados ao desenvolvimento de talento que elaboram-se modelos teóricos sobre superdotação.
Apesar de no Brasil o modelo teórico adotado nas politicas públicas e na educação inclusiva ser focado no desenvolvimento de talento a partir da teoria dos três anéis (three rings conception of giftedness) de Joseph Renzulli, existem muitos outros modelos que podem contribuir para compreender a superdotação. Tão notável e importante como o modelo de Renzulli é o modelo do pesquisador da universidade de Quebec no Canadá, Françoys Gagné, chamado “O Modelo Integrativo de Desenvolvimento de Talentos (IMTD)” e é sobre as ideias dele que pretendo discorrer um pouco nesse artigo.
Françoys Gagné é considerado um autor do paradigma teórico conceitual do desenvolvimento de talento (Dai, 2013), porém alguns autores mais atuais classificam seu modelo teórico como uma visão sistêmica do desenvolvimento da superdotação e talento, isto significa que suas ideias de superdotação se relacionam profundamento com as teorias sistêmicas de desenvolvimento humano, dentro desta perspectiva o desenvolvimento humano é compreendido de forma dinâmica e interrelacionado com múltiplos sistemas, tais como a sociedade, a família, escola. Além é claro de componentes próprios da natureza (sistema vivo) de cada indivíduo (Brofenbrenner, 1979).
Esta introdução à teoria é importante para entendermos diretamente como esse modelo se diferencia do puro desenvolvimento de talento e o principal em sua teoria, a diferenciação da superdotação do talento e por este motivo o modelo teórico de Gagné se diferencia (porém pode complementar) algumas das ideias de Renzulli.
No IMTD, Gagné propôe uma diferenciação conceitual fundamental, a de superdotação (muito relacionada à natureza e aptidões) que logo compõem trajetórias de desenvolvimento próprios e talento como uma competência plenamente desenvolvida:
“Superdotação designa a posse e o uso de aptidões ou aptidões naturais excepcionais ancoradas biologicamente e desenvolvidas informalmente (chamadas de dons), em pelo menos um domínio de habilidade, a um grau que coloca um indivíduo pelo menos entre os 10% melhores da mesma idade. Talento designa o domínio excepcional de competências desenvolvidas sistematicamente (conhecimento e habilidades) em pelo menos um campo da atividade humana a um grau que coloca um indivíduo pelo menos entre os 10% melhores "colegas de aprendizagem" (aqueles que acumularam uma quantidade semelhante de aprendizagem tempo do treinamento atual ou passado).” (GAGNÉ, 2017)
Essa diferenciação é fundamental para compreendermos as diferenças que podem atravessar as múltiplas populações de pessoas superdotadas e talentosas (dupla excepcionalidade, baixo rendimento, etnicamente, socialmente, ecnonomicamente e linguisticamente diversas e outras historicamente subnotificadas/subidentificadas), pois ao considerarmos que o talento está ancorado em uma natureza, aceitamos as questões de hereditariedade e genética como parte de um componente amplamente complexo no desenvolvimento de superdotados e que não necessariamente haja uma demonstração de pleno talento e competência em comportamentos notórios.
E neste ponto, diferente de Renzulli, o modelo de Gagné assume e defende essa diferença desde o nascimento em algumas pessoas (ao menos 10% da população) e durante o desenvolvimento (ao longo da vida) vários fatores que podem se relacionar, catalisar e influenciar o desenvolvimento do talento são considerados sem desconsiderar a própria natureza (e as propriedades desse sistema vivo) da pessoa superdotada:

O Modelo Integrativo de Desenvolvimento de Talentos (IMTD)
Assim como Renzulli, no modelo teórico de Gagné observamos muitas mudanças, ampliações e atualizações da teoria. Atualmente seu modelo é concebido num gráfico que representa os elementos do desenvolvimento de talentos dentro de uma trajetória (uma espécie de linha do tempo).
Antes mesmo de falar sobre os domínios de superdotação ele fornece uma estrutura teórica de compreensão das bases genéticas/epigenéticas e comportamentais que estão envolvidas na superdotação, o que ele chama em seu modelo de “porões do desenvolvimento de talento”. O autor oferece uma amplitude de artigos explanando com profundidade essa parte da teoria, sugiro a leitura desse material, porém de forma simplificada ele explica que os comportamentos que resultam em aptidões tem ancoragem em aspectos (exo) fenótipos e (endo) fenótipos.
Logo em seguida Gagné descreve o componente denominado E, ambiente ou enviroment em inglês, e são definidos um dos elementos chave da teoria: os catalisadores, estes fatores segundo Gagné irão influenciar tanto o processo de desenvolvimento dos fenótipos da superdotação como o processo de desenvolvimento da superdotação em talento:
“Os grandes conjuntos de catalisadores intrapessoais (I) e ambientais (E) afetam o processo de desenvolvimento de talentos de forma positiva ou negativa. O componente I compreende cinco subcomponentes agrupados em duas dimensões principais, a saber, traços estáveis (FI físico, PI mental) e processos de gerenciamento de metas (autoconsciência-IW, motivação-MI e volição-IV).
Dentro da categoria mental ou personalidade (PI), o conceito de temperamento refere-se a predisposições comportamentais com fortes fundamentos biológicos e hereditários, enquanto o termo personalidade engloba uma grande diversidade de estilos de comportamento adquiridos positivos ou negativos (Rothbart, 2012). A estrutura mais amplamente aceita para atributos de personalidade é chamada de Modelo dos Cinco Fatores; pesquisas mostraram que cada fator possui raízes biológicas significativas (McCrae, 2009)”. (GAGNÉ, 2017)
Os catalisadores basicamente são definidos por processos cognitivos e comportamentais bastante populares na psicologia cognitiva, incorporando dentro do modelo o fator personalidade com base no modelo de maior evidência disponível, Big Five, além disso menciona fatores ambientais e intrapessoais no desenvolvimento do indivíduo.
Os catalisadores estão dentro de uma direção de desenvolvimento que Gagné denomina como D, ou processo de maturação, que é caracterizado por uma aprendizagem informal na primeira fase do desenvolvimento (primeira infância) e depois como atividades, investimento e progresso (no processo do desenvolvimento do talento em sí).
Em seguida, são caracterizados os domínios de superdotação (G) , ou seja aqueles domínios que possuem uma natureza, como definido anteriomente são as “aptidões naturais” e estão influenciados pelos catalisadores ambientais e intrapessoais dentro do desenvolvimento, os domínios esses domínios são caracterizados como:
MENTAL:
Inteligência Geral (G): inteligência geral (fator g), raciocínio fluído e cristalizado, memória verbal, numérica, espacial, processual e declarativa.
Criativo (GC): Inventividade (resolução de problemas), imaginação, originalidade (artes), fluência de recuperação.
Social (GS): Percepção (manipulação), interação (facilidade social), tato, influência, persuasão, eloquência.
Perceptual (GP): visão, audição, olfato, paladar, tato, propriocepção
FÍSICO
Muscular (GM): potência, velocidade, força e resistência
Controle motor (GR): velocidade, reflexos, agilidade, coordenação, equilíbrio

Como já mencionado os catalisadores do fator ambiental também atuam no processo de desenvolvimento dessas aptidões naturais (superdotação) em competências (talento), e neste processo de desenvolvimento que promove a superdotação para o talento os fatores atividades, progresso e investimento são fundamentais.
Gagné cita as principais competências humanas demonstradas no talento, mas deixa claro em sua teoria que há uma inifinidade de possibilidades de talentos.
O modelo dele ainda inclui alguns elementos importantes nessa direção do desenvolvimento, o fator sorte. Sim, o acaso, a sorte, ou as oportunidades são maiores que os catalisadores no processo de desenvolvimento. Gagné ainda deixa claro que seu modelo é dinâmico:
“Em resumo, nenhum componente causal está sozinho; todos eles interagem uns com os outros e com o processo de aprendizagem de maneiras muito complexas, e essas interações serão significativamente diferentes de uma pessoa para outra.” (2017, Gagné)
Principais conclusões:
Em conclusão, pelo menos nove características distinguem o DMGT / IMTD dos modelos concorrentes. Juntos, eles tornam essa teoria uma concepção distinta e única de desenvolvimento de talentos.
O DMGT diferencia claramente o significado dos dois conceitos-chave do campo: superdotação e talento. Essa diferenciação entre potencialidades e realizações torna possível uma definição única de baixo desempenho entre indivíduos superdotados; simplesmente se torna a não-transformação de altas habilidades naturais em habilidades notáveis sistematicamente desenvolvidas.
A distinção acima leva a outra definição clara: o desenvolvimento de talentos torna-se uma transformação progressiva de dons - ou quase dons - em um ou mais domínios em talentos em um determinado campo ocupacional. O DMGT é único ao tornar o conceito de talento tão importante quanto o de superdotação para a compreensão do desenvolvimento de competências excepcionais (conhecimento e habilidades).
A introdução nas definições de superdotação e talento das estimativas de prevalência (top 10%) também constitui uma contribuição única do DMGT. Seu sistema baseado em métricas de cinco níveis que se aplica a qualquer domínio de superdotação ou o campo de talentos ajuda a manter uma consciência constante das diferenças dentro das subpopulações de indivíduos superdotados e talentosos.
A maioria das concepções se concentra quase exclusivamente na superdotação intelectual (GI) e talento acadêmico (TC), bem como em profissões de base acadêmica (por exemplo, cientistas, advogados ou médicos). Ao ampliar os conceitos de superdotação e talento e reconhecer uma diversidade de manifestações em milhares de campos ocupacionais, o DMGT propõe uma visão exclusivamente não elitista do desenvolvimento de talentos.
O DMGT está quase sozinho ao trazer a superdotação física para dentro do construto da superdotação, definindo esse domínio de forma muito mais ampla do que a inteligência cinestésica corporal de Gardner (Gardner, 1983). Essa abertura deve promover laços mais próximos entre os profissionais que se concentram no desenvolvimento de talentos acadêmicos e aqueles que dedicam suas energias ao desenvolvimento de talentos atléticos ou artísticos.
A estrutura complexa do DMGT pode abrigar todos os fatores causais potenciais do surgimento de talentos. No entanto, essa estrutura mantém a individualidade de cada componente, subcomponente e faceta; também especifica claramente sua natureza precisa e seu papel dentro desta teoria de desenvolvimento de talentos. Os catalisadores estão claramente situados fora dos próprios conceitos de superdotação e talento. Isso separa o DMGT de muitas concepções rivais onde elementos díspares são incluídos na própria definição de superdotação (por exemplo, Feldhusen, 1992; Sternberg & Davidson, 2005).
Somente no DMGT se encontra um esforço para responder à pergunta crucial: “O que faz a diferença?” Classificar as principais influências causais em termos de seu impacto relativo no desempenho acadêmico ajuda a reconhecer o papel crucial das habilidades cognitivas naturais para o surgimento de competências acadêmicas excepcionais.
O recém-criado DMNA torna possível reconhecer e situar adequadamente estruturalmente os fundamentos biológicos e genéticos das habilidades naturais e de muitos catalisadores intrapessoais. Nenhum outro modelo competitivo leva em consideração essas influências causais mais distais.
O novo IMTD propõe de forma única uma visão totalmente integrativa do complexo processo de desenvolvimento de talentos, literalmente “dos genes aos talentos” (Gagné, 2015b).
Por fim, sabemos que o O Modelo Integrativo de Desenvolvimento de Talentos (IMTD) fornece ideias importantes que podem contribuir para pensarmos definições mais expandidas de superdotação, e talvez protocolos e ferramentas que auxiliem numa identificação mais efetiva de crianças e adultos superdotados dentro de uma visão mais complexa do que as clássicas abordagens de QI ou de talento (expertise), além disso incluir questões como a personalidade (através do modelo dos cinco grandes fatores de personalidade) pode ser extremamente útil para psicólogos e psicopedagogos clinicos identificarem, compreenderem e elaborarem estratégias eficazes de intervenções educacionais e psicológicas para esta população.
E você já conhecia o modelo de Françoys Gagné?
Por Jenifer Mendes –
Jenifer Mendes - mãe de dois neuroatipicos, Giancarlo, superdotado intelectual acadêmico e Apollo TEA. Mulher 2E (TEA e superdotada). Publicitária especialista em comunicação digital, neuropsicopedagoga e psicóloga em formação. Comunicadora, criadora de conteúdo e ativista da neurodiversidade desde 2019 no instagram @maternarneurodivergente, idealizadora da comunidade @tudosobresuperdotacao(espaço para conteúdo e informação baseada em ciência sobre superdotação e dupla excepcionalidade).



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